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Para o advogado, o estágio e os primeiros anos eram a verdadeira faculdade de Direito. A IA acabou com isso.

Por décadas, o que formava o advogado não era a graduação — era o trabalho repetitivo dos primeiros anos de escritório. A inteligência artificial automatizou exatamente esse trabalho.

Andre Caron
Para o advogado, o estágio e os primeiros anos eram a verdadeira faculdade de Direito. A IA acabou com isso.

Por décadas, o que formava o advogado não era a graduação — era o trabalho repetitivo dos primeiros anos de escritório. A inteligência artificial automatizou exatamente esse trabalho. E devolveu às universidades uma responsabilidade que havia sido terceirizada para o mercado.

Todo advogado experiente sabe de uma verdade que raramente se diz em voz alta: a faculdade de Direito não forma advogados. Forma bacharéis. A formação de fato — a que ensina a pensar como advogado, redigir como advogado, enxergar um caso como advogado — acontecia depois, nos primeiros anos de escritório. E acontecia através de um mecanismo específico, tão invisível quanto eficaz: o trabalho repetitivo do estagiário e do advogado júnior.

Era ali, buscando jurisprudência por horas, lendo dezenas de petições alheias, copiando modelos e adaptando, organizando documentos de um processo volumoso, redigindo a vigésima contestação parecida com as dezenove anteriores, que o jovem profissional aprendia o ofício. Não pelo conteúdo de cada tarefa isolada — a maioria era tediosa e pouco nobre —, mas pelo acúmulo. A repetição era o currículo. Um currículo informal, não-declarado, que ninguém colocava no papel mas que todo mundo sabia que era o que realmente formava.

A inteligência artificial automatizou esse currículo inteiro. E ao fazê-lo, expôs uma fragilidade que estava escondida há gerações: a curso de Direito havia terceirizado para o mercado a parte mais importante da formação. Agora o mercado não vai mais fazer essa parte. E a conta volta para quem sempre deveria tê-la pago.

O currículo oculto da repetição

Vale entender por que o trabalho repetitivo formava, porque não era óbvio nem intencional.

Quando um estagiário ou advogado recém formado passava três horas procurando precedentes sobre um ponto específico, ele não estava só encontrando os precedentes. Estava, sem perceber, aprendendo como os tribunais raciocinam, quais argumentos colam e quais não colam, como uma tese se sustenta ou desmorona. Quando copiava um modelo de petição e o adaptava ao caso, estava internalizando estrutura, linguagem, retórica forense. Quando organizava a cronologia de um processo complexo, estava aprendendo a enxergar a espinha narrativa de um litígio. Quando redigia a vigésima peça semelhante, estava — pela milésima correção do sócio — calibrando julgamento, tom, estratégia.

O conhecimento se transferia pela mão, não pela aula. Era um aprendizado tácito, de artesão para aprendiz, embutido na própria execução da tarefa. Ninguém ensinava explicitamente "é assim que se pensa um caso"; o estagiário absorvia isso fazendo, errando, sendo corrigido, refazendo. A tarefa repetitiva era o veículo. Maçante, mal pago, frequentemente ingrato — mas formativo de um jeito que nenhuma disciplina de graduação conseguia replicar.

Esse era o acordo implícito do sistema inteiro. A universidade entregava o bacharel com a base teórica; o mercado terminava o serviço, transformando bacharel em advogado através de anos de trabalho operacional. Todos sabiam disso. A universidade, inclusive, se acomodou a isso: podia se dar ao luxo de ser teórica, distante da prática, porque sabia que o escritório faria a parte prática depois.

O que a IA tornou obsoleto

A inteligência artificial faz, em segundos e com competência, exatamente as tarefas que constituíam esse currículo oculto.

A busca de jurisprudência que tomava a tarde do estagiário, a IA faz em instantes. A primeira versão da petição que o júnior levava horas para montar, a IA rascunha de imediato. A organização do processo volumoso, a leitura do contrato extenso, a tabela comparativa de cláusulas, o resumo de dezenas de documentos — tudo aquilo que constituía o trabalho de base dos primeiros anos de carreira é precisamente o que a IA amplifica melhor.

Do ponto de vista da produtividade do escritório, isso é uma notícia excelente. O trabalho operacional encolhe, o profissional foca no que tem valor, a entrega acelera. Mas do ponto de vista da formação, abre-se um buraco. Porque se a IA faz a busca de jurisprudência, o jovem advogado não passa mais as três horas que o ensinavam a pensar como o tribunal raciocina. Se a IA rascunha a petição, ele não internaliza mais a estrutura pela repetição. O veículo do aprendizado tácito — a tarefa repetitiva — desaparece.

E aqui está o ponto incômodo: o trabalho some, mas o aprendizado que ele gerava era real e ainda é necessário. Um advogado que nunca passou pela repetição corre o risco de virar um operador de IA sem o julgamento que só a prática acumulada constrói. Ele consegue gerar a petição — mas tem critério para avaliar se ela está boa? Consegue pedir a jurisprudência — mas sabe reconhecer quando a IA inventou um precedente? A competência de supervisionar a IA pressupõe exatamente o conhecimento que antes se adquiria fazendo o que a IA agora faz.

A conta volta para a universidade

É aqui que a responsabilidade retorna ao seu ponto de origem. Se o mercado não vai mais formar o advogado através da repetição — porque a repetição foi automatizada —, então a formação verdadeira precisa acontecer em outro lugar. E o único lugar estruturalmente responsável para isso é a universidade.

Isso exige uma transformação que vai muito além de "adicionar uma disciplina de IA na grade". O desafio é mais profundo: a universidade precisa assumir, deliberadamente e pela primeira vez, a responsabilidade de formar o julgamento que o estágio (ou os primeiros anos de um advogado recém formado) formava por osmose. Precisa ensinar explicitamente o que antes se aprendia tacitamente.

Isso significa ensinar o aluno a pensar como um tribunal raciocina — não esperando que ele descubra isso sozinho depois de três anos buscando precedentes, mas trabalhando o raciocínio jurisprudencial em sala, de forma estruturada. Significa ensinar a avaliar criticamente um texto jurídico produzido por IA: reconhecer um argumento frágil, identificar uma citação inventada, perceber quando falta nuance. Significa formar a capacidade de estruturar contexto — de fazer as perguntas certas, de enxergar o que importa em um caso — que é justamente o que a IA não faz e o que o profissional precisa dominar para usá-la bem. Significa, em suma, mudar o eixo da formação: do acúmulo de conteúdo, que a IA já domina, para o desenvolvimento do julgamento, que permanece humano.

Há uma ironia histórica nisso. Durante décadas, a universidade brasileira (os cursos de Direito) foi criticada por ser teórica demais, distante da prática. A crítica era justa, mas a resposta nunca veio — porque o mercado tapava o buraco. Agora o buraco está exposto, e a universidade não tem mais como se esconder atrás do estágio. O paradoxo é que a solução não é a universidade ficar mais prática no sentido antigo — ensinar a fazer o que a IA já faz seria formar para o desemprego. A solução é ficar mais formativa no sentido profundo: desenvolver o que distingue o jurista da ferramenta.

A oportunidade dentro do problema

Seria fácil ler tudo isso como uma crise, e em parte é. Mas há uma oportunidade rara escondida aqui.

Por gerações, a universidade operou o seu curso de Direito sabendo que sua formação era incompleta e contando que outro a completasse. Havia, nisso, uma espécie de irresponsabilidade confortável. A IA, ao remover a muleta do estágio formativo, força a universidade a se tornar o que ela sempre deveria ter sido: o lugar onde se forma o jurista por inteiro, não apenas o bacharel pela metade.

As faculdades que entenderem isso primeiro — que reformularem suas grades não para ensinar a operar ferramentas, mas para formar o julgamento que as ferramentas exigem e não substituem — vão formar a geração de advogados que vai liderar a profissão nas próximas décadas. As que insistirem em entregar o bacharel teórico, contando com um estágio formativo que não existe mais, vão formar profissionais incompletos para um mercado que não tem mais como completá-los.

Ou então entendemos o curso de Direito como um local meramente acadêmico, a preparação profissional sempre virá depois. E com isso dificultamos a entrada do jovem no mercado de trabalho.

Fica o desafio.


Andre Caron é CPO e Legal Engineer do Maestro, plataforma de inteligência contextual jurídica da DeepJuris. Advogado de formação pela UFPR.

O Maestro é uma solução #DeepJuris.